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Lengcom 10.2 (2015). ISSN 2386-7477


 Fonte Financiadora: FUMDES


Os efeitos de sentido da ironia e do humor: uma análise do discurso contestatório nas histórias em quadrinho da Mafalda

The effects of meaning of irony and humor: an analysis of speech in contesting comics of Mafalda

 

Silvana Colares Lúcio de Souza

Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL

silcol@yahoo.com.br

                                                               

Resumo: Este trabalho tem como objetivo discutir os efeitos de sentido da ironia e do humor do discurso contestatório nas histórias em quadrinhos da Mafalda de Joaquín Salvador Lavado, Quino. Nas historinhas, a pequena Mafalda, beneficiou-se do seu humor e ironia, cavou uma brecha no regime ditatorial argentino e expôs um conjunto de temas polêmicos que, por meio de seu discurso contestatório, refletiram as inquietações políticas, sociais e culturais da época. Nas análises observou-se que, o humor e a ironia podem produzir efeito de opacidade dos sentidos, a figura da criança abriga a discussão de várias questões de ordem contestatória. 


Abstract: This paper aims to discuss the effects of sense of irony and humor in the stories contesting speech in Mafalda comic Joaquín Salvador Lavado, Quino. In the stories. The little Mafalda, benefited from his humor and irony, dug a hole in the Argentine dictatorship and exposed a number of controversial issues which, through its contesting speech reflected the political unrest, social and cultural of the time. In the analysis it was observed that, humor and irony can produce effect of opacity of the senses, the child's image is home to the discussion of various issues of anti-establishment order.


Palavras-chave: efeitos de sentido; Ironia; Humor; Discurso contestatório.

Key words: Irony; Humor; Effects of sense; Contesting speech.


1. Contestação

Contestar, no sentido mais simples do termo e que se pode encontrar nos dicionários, significa recusar, protestar, colocar em dúvida, questionar. Para pensar as relações sociais nas histórias em quadrinho da Mafalda é necessário entender a contestação social. Sendo assim, contestação é o ato de manifestar descontentamento contra algo e isso pode ser realizado sob formas distintas. A contestação, no fundo, é ela mesma uma relação social. Desta forma, podemos definir contestação social como uma relação social marcada pela recusa por parte de alguns indivíduos ou grupos das relações sociais estabelecidas.


E nesse viés, trazemos como veículo e espaço para exposição de contestações da sociedade, as histórias em quadrinhos, pois são instrumentos que possibilitam aos seus autores o questionamento das realidades observadas, podendo, dessa forma, construírem críticas dos vários temas que compõem uma sociedade, sugerindo, então, que o leitor perceba tais situações, motivando-o até mesmo a estabelecer sua própria opinião. Portanto, através do discurso exposto nas histórias em quadrinhos, podemos assegurar que está contido ali não somente uma análise, mas também um posicionamento, uma contestação em relação a várias questões preocupantes para a Argentina e para o mundo.                   

 

2. Contestação nas HQ’s da Mafalda

As histórias em quadrinhos da Mafalda caracterizam-se pela porosidade, alternando os elementos descritivos e narrativos, recorta o tempo em unidades descontínuas transpondo assim o tempo cronológico, transformam os personagens, mas também remetem a uma realidade atual. Mafalda, vista nesta pesquisa como um elemento contestador do discurso instaurado, que ao concebê-lo, acredita-se que ela constrói outros, desliza sentidos para outros, posto através de uma crítica bem humorada nos quadrinhos. E é através da concepção dos personagens, que já se percebe o reflexo do convívio com a sociedade portenha e de modo geral, dos problemas mundiais nos idos de 60 e 70, quando Quino foi viver em Buenos Aires. Uma vez que, nesta mesma época a Argentina passava por um momento de desenvolvimento econômico e industrial.


Na educação, apesar de o governo demostrar certo apoio ao ensino superior, tanto público como privado, ambos constantemente entravam em conflito devido ao fato de a universidade pública ter se transformado em um polo de crítica, não somente do governo, mas de toda esfera politica e social do país. A desigualdade social crescia rapidamente e mesmo os jovens recém-formados sofriam para colocarem-se no mercado de emprego com salários íntegros. Desse modo, ocorreu forte migração de jovens recém-formados, aos países estrangeiros, onde podiam ter oportunidades e salários melhores.


De forma a comedir o avanço dos ideais comunistas e manter o controle ideológico do país, militares e políticos proibiram toda forma de expressão que contrariasse o governo, desde música, teatros, livros e até filmes, ou seja, tudo o que fosse considerado de esquerda, ou extremista, seria enquadrado pelas autoridades responsáveis pelo controle.


Assim, Quino, diante da liberdade sendo usurpada, utilizou de suas tiras diárias da Mafalda para criticar a política e os problemas sociais. De acordo com Pablo José Hernandez (1975), Quino manteve-se na mídia, pois criticava a sociedade, tornou-se impossível negar o cunho político das tiras do autor, quando analisamos sua obra como um todo.


Nesse sentido, após descrevermos os inúmeros problemas e mudanças no período histórico da criação das tirinhas da Mafalda, e de descrevermos a conjuntura histórica e político-social, seguiremos, então, para a análise discursiva.

 

3. Análise do discurso contestatório na HQ’s da Mafalda

Posto esse detalhamento do cenário político-social do período da criação das tirinhas, apresentamos Mafalda como uma anti-heroína das histórias em quadrinhos, pois não surge para salvar o mundo das ameaças, mas para contestar as questões políticas, econômicas e culturais da América Latina e do mundo.


Dessa forma, na análise das tirinhas da Mafalda, não consideramos os aspectos linguísticos por si só, mas, sim, em sua relação com as condições de produção, com os aspectos histórico-sociais, levando em consideração o momento histórico e os sentidos produzidos. Em outras palavras, não analisamos apenas as relações linguísticas internas e os elementos da língua, mas, sim, a sua relação entre língua e história na produção de sentidos. Pois, dessa forma, o discurso é analisado levando em consideração a exterioridade, aquilo que faz dele um objeto material de sentido, como unidade de análise.


Verificamos, portanto, que nenhum sujeito é igual a outro. Todos nós somos subjetivados, nossos discursos não são nossos (PÊCHEUX, 2009). Então, de onde vieram esses discursos, como os da tirinha abaixo, que transformaram nossa Mafalda em uma pequena contestadora?


Figura 26 - Tirinha 190

Fonte: Disponível em: clubedamafalda.blogspot.com.br. Acesso em: 10 nov. 2013.

 

Para responder a essa questão, analisaremos primeiramente a tirinha acima. Aqui, o cenário é a casa de Mafalda. No primeiro quadro, aparece a menina com um inseticida em uma mão e, na outra, um rádio sendo ligado (aparece o “Clic!”) próximo a uma mosca na parede. Na segunda imagem, pode-se ver que o rádio dá notícias sobre aumento de reservas de armas nucleares, piora no problema da fome e violentos choques raciais – as notícias são consideradas ruins. Nestes dois quadros, pela expressão facial da menina apenas parece que ela está concentrada no que faz.

 

Após a observação das cenas podemos entender que o discurso da Mafalda, levando em conta que os fatores determinantes em tal discurso, são as condições de produção: ditadura argentina, ideologias contestatórias da submissão e incapacidades sociais. Na personagem Mafalda as condições de produção foram tão fortes e categóricas que sofreram influências não apenas nacionais, mas internacionais, tornando o discurso de Mafalda um discurso de liberdade de expressão.

 

É possível entender então, que a relação existente entre Mafalda e a história se consolida por meio da representação que Mafalda apresenta de seu contexto, e da realidade que seu criador encontrava-se, uma visão do período em questão. Portanto, as circunstâncias exteriores à produção discursiva devem também ser levadas em conta, às quais Pêcheux (1988) denominou “condições de produção”. As condições de produção definem o lugar determinado ocupado pelo locutor na formação social em que vive, e o sentido do que diz depende desse lugar, bem como da relação estabelecida com outros discursos anteriores.

 

E o último quadro provoca o riso, pois mostra Mafalda, de costas para a mosca já morta, com o inseticida e o rádio nas mãos, dizendo ironicamente que a morte deve ter sido menos dolorosa para a mosca, depois de saber de todas as mazelas que estariam atingindo o mundo. Respondemos, portanto, a questão anterior, uma vez que Mafalda é uma pequena contestadora, pois seu discurso ironicamente faz alusão crítica ao cenário político-social.

 

Outro ponto que merece ser destacado nos quadrinhos acima é o rádio, pois Mafalda faz do rádio um personagem. Observando outras tirinhas, percebemos que este veículo acompanha a protagonista desde o início da história, pois é ele que a informa antes de aprender a ler e de ter uma televisão em casa. Ela o ofende, responde ao que o radialista diz, completa suas sentenças, o interrompe e contracena com ele como se fosse um de seus colegas. 

 

Embora a voz do radialista no ar produza um efeito objetivo por sua entonação, ritmo, imputação e ainda dicção - o que gera essa voz da completude - ela não é neutra, não é transparente. A voz é atravessada pela discursividade, se constitui no embate entre a materialidade da língua e a materialida

 

Podemos dizer então, que para Mafalda, os meios de comunicação são importantes ferramentas para ela questionar os problemas do mundo. Mafalda também, até mesmo quando está ouvindo um programa de entretenimento, contracena com o rádio, dança e reage às produções educativas. No entanto, ela demonstra sentimentos negativos em relação a este meio, tratando o rádio como um mensageiro de problemas e tragédias no mundo, pela observação das reações dos personagens há o medo do comunismo e das armas nucleares.

 

Portanto, novamente constatamos em seu discurso o que vínhamos atestando sobre a personagem Mafalda, ou seja, seu caráter contestatório numa época em que sua imagem, por meio da proposição de seu criador, serviu de contraponto para expor, por meio do humor e da ironia, um conjunto de temas polêmicos, entre os quais o autoritarismo, a repressão e a censura, os quais marcam a sua interpelação ideológica.

 

Outro exemplo é a tirinha abaixo:

 

Figura 27 - Tirinha 362

Fonte: Disponível em: clubedamafalda.blogspot.com.br. Acesso em: 10 nov. 2013.

 

Na figura 27 Mafalda afirma que o mundo está doente. O pai, supondo a inocência da personagem, questiona sobre uma possível febre. Surpreendendo o pai, Mafalda constata que a doença do mundo é o comunismo galopante. Ao comparar o comunismo com se fosse uma doença, Quino se apropria do discurso ocidental sobre uma possível ameaça comunista, como se fosse uma doença contagiosa. Dessa forma, denuncia o medo inocente – presente no comentário da Mafalda – que repercutia na população argentina. O panorama sócio-político da Guerra Fria, quando o mundo estava dividido entre os blocos capitalista e socialista e o medo do espectro vermelho assombrava a classe média de vários países, principalmente na América Latina.

 

Nossa protagonista, Mafalda, é uma criança, mas está muito distante do mundo infantil supostamente inocente, pois mesmo existindo no seu cotidiano fatos de infância propriamente ditos. Sabemos que na infância é possível contestar sobre grandes temas, como a morte e o sexo, mas será decorrente de observações e impasses domésticos, e esses pensamentos se expressarão principalmente através de brincadeiras e conversas meio enigmáticas, nas quais se nota nitidamente que a criança está abordando algo que está além de sua compreensão. Já, nossa pequena Mafalda, difere em todos os aspectos da infância, pois apesar de seus seis anos de vida, contesta todos os descaminhos da humanidade, na beligerância dos povos, no poder dos militares, os golpes pipocavam na América Latina da época, nos problemas do Terceiro Mundo, na necessária ampliação dos horizontes femininos e na podridão dos políticos de plantão

 

Desse modo, é através da combinação do mundo infantil com uma crítica adulta aguçada que é produzido o efeito da ironia e do humor. Observamos, portanto, que Mafalda assume a posição-sujeito filha, mas com saberes de uma posição-sujeito de adulto politizado. Quino explora o protagonismo da criança como um veículo de transmissão de discursos proibidos ou de temas marcados por uma restrição imposta pelo regime não democrático e que na boca da criança podem ser enunciados, porque mesmo Mafalda proferindo um discurso contestatório, não faz com que sua condição de criança não exista, dada a sua condição de sujeito. A figura da criança promove, certas vezes, uma ruptura com a ordem das coisas (no caso da tira, a ordem dos sentidos) e assim impõe uma restrição com relação ao modo de compreender a infância, pelo menos no humor. E é, assim, no movimento dos sentidos no discurso que se constatam o atravessamento de discursos e sua não homogeneidade.

 

Transpondo para o nosso corpus, quando Mafalda diz algo, por exemplo: “está com um comunismo galopante”, a sua fala representa o dizer de um determinado lugar da sociedade; fala para aqueles que também ocupam um determinado lugar na sociedade, e esse seu dizer, o seu discurso, está entrelaçado aos seus valores sociais.  

 

 

4. Conclusão 

Verificamos, desse modo, que o conjunto, linguagem verbal e não-verbal presentes em HQ’s nos remetem a outras imagens, ou seja, sustentam o dizer em uma estratificação de formulações já feitas e que vão construindo uma história dos sentidos, dando a impressão de o sujeito saber do que está tratando. O discurso não é um produto pronto para ser analisado, mas uma construção histórica e social de produção da linguagem no interior de um sistema de formações sociais, ou seja, todo discurso de Mafalda só pode ser compreendido se o momento histórico em que ela foi desenhada por seu autor for entendido por nós leitores.    

 

Através da análise das amostras, verificou-se que o autor, Quino, conseguia tecer a contestação aliada ao humor em plena ditadura militar e como esse humor, essa ironia e a crítica presentes em suas tirinhas por meio de Mafalda, driblava constantemente os censores argentinos. Desse modo, a figura da criança dava voz àquilo que os adultos não poderiam dar.

 

Portanto, a brincadeira, o humor e a ironia, podem produzir efeito de opacidade dos sentidos, a figura da criança abriga a discussão de várias questões de ordem contestatória. E foi nessa categoria que foi possível sinalizar um certo espaço de liberdade, de manobra, para o sujeito do discurso.

                    

Referências 

 

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  • ORLANDI, Eni. Discurso e texto: formação e circulação dos sentidos. Campinas: Pontes, 2001.               
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  • QUELLA-GUYOT, Didier. A história em quadrinhos. Tradução: Maria Stela e Adail Ubirajara Sobral. São Paulo: Loyola, 1994, p.151.
  • RAMOS, Paulo. Bienvenido: um passeio pelos quadrinhos argentinos. Campinas: Zarabatana, 2010.
  • REIS, Susan Mary dos. A arte de não silenciar: o silêncio local “costurado” em músicas de Chico Buarque. Dissertação (Mestrado em Letras) Universidade de Passo Fundo, 2010.
  • ROMERO, José Luis. Las ideas politicas en Argentina. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2002.


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